a escrita da mulher negra e sua urgência
- Cris Rosa
- 23 de out. de 2022
- 2 min de leitura
a escrita da mulher negra, não raro, é marcada pela pressa. não a pressa de acabar, mas a pressa de viver, de entender, de existir na escrita. é como se vivêssemos tanto sob a ameaça de apagamento que fazemos da escrita uma urgência. com isso vem junto toda uma vida marcada pela corrida frenética por um lugar ao sol, sob parâmetros e requisitos alterados a cada passo, como dito em “estrelas além do tempo”. vem junto com essa escrita a necessidade de dar conta de tudo: dos pratos na pia, dos livros não lidos — e não dominados, numa gama imensa de lições intermináveis sobre o que precisamos entender para falar sobre nós mesmas: mulheres, negras, classe trabalhadora — de uma família que nos espera em casa, da rede de solidariedade, da militância, do suporte psicológico que nunca largamos desde a escravidão. tudo isso vem junto com uma escrita marcada pela pressa. as vezes uma pressa certeira: poucas palavras, um tiro. sem dúvidas, uma escrita que é marcada pela nossa história, pela quantidade infinita de coisas que precisamos fazer pelo corpo, pela saúde, pela sociedade, pela academia, pela família, por nossos pares e, quando possível, por nós. que lugar essa responsabilidade ocupa no modo como dispomos as palavras no papel?
tudo isso é sobre o tempo e o trabalho que nos é roubado cotidianamente. é sobre a apropriação dos nossos corpos. é sobre o não-direito de ter o “não” como base das nossas escolhas há tantas centenas de anos. nada disso é pessoal, individual, intransferível. ao contrário, esse é um dos elementos que marca a nossa produção, embora sejam elas agora o alvo dos que buscam a perfeição. perfeição esta que nunca foi encontrada através desses olhos em nenhum aspecto da nossa existência, principalmente porque o perfeito, o ideal, são conceitos deles, da carne descolorida, mas hoje, ainda, servem como legitimadores da nossa produção intelectual.
em meio a esse questionamento me dou o direito de pausa. pouso. repouso. é assim que a gente se dá tempo e produz espaço.
de 18 de outubro de 2020.
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